quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Absinto


O amor é fada verde que alucina,
Tulipa na alma enfurecida.
Ora alimenta, como mel,
Ora é veneno, puro fel.


Poema in blues



Queria escrever um poema banal
Um poema que falasse de amor.
Do amor cotidiano, comum, fugaz,
Que mora nas margens, nos becos
E que súbito explode e se desfaz.

Queria um poema como fosse um pássaro:
Com asas, céu, nuvens e muita liberdade.
Um poema que ouvisse o mar em conchas
E traduzisse o canto triste dos crepúsculos
Que viaja nos olhos baços dos soldados.

Queria um poema despido de rumo e rima,
Como ave no horizonte líquido do silêncio,
Como um blues noturno no rio Mississipi:
Rouco, rústico, suado de auroras e desejos.
Um poema intenso, tenso, quase religioso.

Que expressasse da vida toda sua dor e beleza.
E que depois fugisse de mim, cioso, livre, ocioso,
E ganhasse o mundo, embriagado de incertezas.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Miragem




















A onda sobre o rochedo é um pássaro, é medo,
Mas, sobretudo, é a vida que ora grita, ora cala,
Como uma órfã muda na obscura noite de mim.
Eu, degredado no abismo de água, pedra e sal,
Onde rugas tecem o tempo e o que não é tempo
E onde meus olhos guardam auroras e poentes
Desse teu corpo marítimo, solar, quase boreal.

Ali, antes, no improvável tempo, beijei teu lábio.
Eu, íntimo das insônias e das palavras parvas,
Amei-te como o vento à lua num deserto arábio,
Percorrendo dunas, sombras, curvas, paisagem,
Bebendo lua, estrelas, oásis, como um beduíno,
Até saciar a minha insaciável sede de ti, amada,
E descobrir que o amor é tudo/nada: é miragem.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Amor enigma














Olho teus olhos,
Dois abismos que convidam,
E me atiro ao medo.
Olho teus lábios,
Conchas marítimas de mistério e mel,
E os imprimo aos meus.
Olho teus seios,
Rubras romãs, sementes de manhãs,
E os degusto como o dia, o sol.
Olho teu corpo,
Ânfora oleada de cheiros e desejos,
E me sacio da fome plena.
Olho tua alma nua como a lua,
E o que vejo é claro enigma.
Que se me vê, renega.
E se me cega, enxerga.
Que se me tem, se farta.
E se me farto, entrega.
Olho-te com doçura calma
De quem anoitece enfim:
Ora me adormecendo em ti.
Ora te amanhecendo em mim.
Como uma pétala, uma flor,
Que no meu peito, brota
E nos teus beijos, flora.

Rio de Janeiro, 25/06/2009